Procurando Mãe
9 de agosto, 2005
(Nota: Obrigadão para o Vitinho e para a minha mãe, pela ajuda deles editando o meu português ruim! E para a Cíntia, pela ajuda dela editando essa frase!)
O amor da minha mãe vibra como menininhas num show do Maroon 5. É incontrolável, imprevisível, louco e doce. Ele não pode ser explicado somente pelo fato de ela ser minha mãe, nem por ela ser uma mulher. Uma parte significante tem raízes mais profundas: ela é uma brasileira.
Eu vim ao Brasil para conhecer a minha família aqui e para aprender português. Mas uma grande parte de mim queria compreender melhor minha mãe. Para me aconchegar, viajei longe dela e mais perto de sua terra natal. Duvido que eu vou conseguir entender ela completamente, mas quanto mais tempo eu interajo com os meus amigos, família, e vizinhos aqui no Brasil, mais eu valorizo a brasileira enraizada profundamente na minha mãe. As excentricidades da cultura brasileira me fazem lembrar dela.
Lois Lehenbauer Winter nasceu na pequena cidade de Concórdia, Santa Catarina, a poucas horas de onde eu moro em Porto Alegre. Com 20 anos ela se mudou para os Estados Unidos e conheceu o meu pai. Logo depois eles se casaram e se mudaram para Taiwan a servir como missionários por (o que acabou se tornando) 17 anos. Três filhos depois, em 1983, eles se mudaram para os Estados Unidos, onde moram até hoje. Ela é uma mulher maravilhosa, ficando por volta de 20 anos na América do Sul, Ásia, e América do Norte, aprendendo taiwanês, chinês, e inglês fluentemente.
Ela é uma filha-de-Deus, que segue o caminho que Ele mostra para ela através quaisquer obstáculos com uma mistura profunda de emoção e confiança. E mesmo que essa composição sensível não pode ser caracterizada somente como um traço brasileiro, no meu dia-a-dia aqui eu encontro a minha mãe batendo papo com as suas amigas na rua, lavando a louça depois de uma refeição na casa da minha tia, e abraçando os meus primos com toda a força de que um abraço deveria transmitir. Ela não está aqui, mas pedacinhos da personalidade dela estão evidentes nessas coisinhas. Deixe-me fornecer uns exemplos:
Agir antes de Solicitar
Era 1998 e minha mãe e eu estávamos rearrumando
a nossa sala para o natal. Utilizando as minhas recentemente adquiridas habilidades
de design de interiores, eu estava imaginando várias combinações
para os móveis, considerando como cada uma afetaria a interação
social ou a possibilidade de uma pessoa andar sem impedimento ao banheiro ou
para pegar mais uma xícara de eggnog (um tipo de gemada com rum). Enquanto
eu considerava todas essas opções, minha mãe já
estava mudando os móveis, resolvendo o probleminha em minutos em vez
de horas.
Essa atitude de minha mãe, de agir antes de ser solicitada, me cerca aqui no Brasil. Copos são enchidos antes mesmo de dizer “mais uma, por favor”; roupas são passadas (até com pregas) sem sequer uma palavra, só um sorriso. Perguntas como “Onde posso encontrar uma pilha para a minha máquina fotográfica” são telefonadas imediatamente parente por parente, achando uma resposta mais rapidamente do que uma pesquisa no Google. Há pouca preocupação de incomodar a outra pessoa com a ligação. Seu probleminha está ali para ser resolvido, e é isso que eles irão fazer.
Falar, Conversar, Fofocar, Discutir
Isso nos leva à segunda generalização da cultura brasileira
que é manifestada na minha mãe: são pessoas que falam,
comunicam e socializam.
Pensei que senti um pouquinho da presença da minha mãe quando Kevan, Edgar, e eu chegamos a uma loja de cachaça no Rio. O sentimento era ambíguo, mas o sorriso no rosto da moça quando ela nos convidou para experimentar as cachaças eu reconheci. A pura alegria com que ela nos ofereceu os 20 tipos de cachaça foi a mesma que a minha mãe transmitiu para as seus clientes no Kmart ou Sears. Ficamos somente para provar, mas o prazer com que a garota conversou conosco foi extraordinário. Não havia nenhum motivo ulterior; não compramos nada. Ela só adorou conhecer pessoas novas, bater um papo, conversar.
Brasileiros, como a minha mãe, gostam de falar. Eles falam no telefone, com os vendedores na rua, com as outras pessoas no ponto de ônibus. Eles falam em todos os lugares, com todos. O assunto não é importante, a tese da conversação tão pouco: falar traz comunhão. Falando com todo mundo de tudo, reforça o conceito da comunidade. Os seus vizinhos tornam-se uma fonte onipresente de informação e sorrisos: você pede direções para um estranho em vez de enterrar sua cabeça num mapa, e você deixa de ler o jornal no ônibus afim de conhecer um novo amigo do seu lado. É impressionante e muito aconchegante.
O Abraço Brasileiro
Eu estava recebendo um abração do meu tio Mario quando eu descobri
uma outra coisa do Brasil e da minha mãe: eles sabem como abraçar.
Brasileiros abraçam, eles beijam, eles mostram carinho. A minha prima Virginia tem essa coisa de me dar um abraço como se ela precisasse dele tanto quanto eu. Ela segura ele só um pouquinho mais, para diferenciar dos outros abraços que nós damos e recebemos durante o dia. É extraordinário. Minha mãe também mostra essa habilidade, me espremendo como um tubo de pasta de dentes, como se ela quisesse abraçar um pouquinho da sua família .
É somente uma reação: vê parente, abraça sem parar. Há muito amor para relembrar, muito essência brasileira a extrair de um abraço tão doce, tão puro, tão completo. Quando eu abraço os meus parentes, estou abraçando a minha mãe também. Existe uma conexão que não pode ser descrita por completo.
Suponho que a conexão é o amor. E como eu comecei
falando do amor da minha mãe, deixe-me terminar falando dele. A minha
mãe exala essa mais preciosa das emoções, tanto quando
manifesta em frustração, em lágrimas, num sorriso cansado,
na alegria de reencontrar, no tom da voz dela. Ainda é um pouco estranho
para mim, pois não conheço a liberdade que vem de uma liberação
emocional assim. Mas eu choro quando posso, somente para sentir-me um pouco
mais próximo da minha mãe. Eu choro sem vergonha. Há uma
partezinha minha que é impulsiva, que fala para sentir-se mais próximo
dos outros, que abraça com o meu corpo inteiro. Tenho esse amor, também,
que a minha mãe exibe. Não é tão forte ou desinibido
quanto o dela, mas estou treinando aqui tanto quanto posso, para sentir-me mais
próximo dela, para tornar-me o filho brasileiro que ela nunca teve.
Carl Winter é um cidadão do Brasil e Estados Unidos que nasceu em Taiwan, que está morando no Brasil pela primeira vez com 28 anos. As histórias, fotos, "digit$" e vídeos são feitos para mostrar um pouquinho do dia-a-dia do Brasil — da perspectiva de um estrangeiro no Brasil.
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